Cúmplice?

Suponhamos hipoteticamente que temos um ministro que, aparentemente, trabalha bem. Ademais, que consegue, aparentemente, ser razoavelmente neutro do ponto de vista político dentro do governo.

Eis que um indivíduo emposta-se, ergue o dedo e diz:

“Este sujeito é cúmplice de um genocida! Deve ser rechaçado, caçado! Nunca deveria ter aceitado o cargo! Seu trabalho indiretamente fortalece o governo! Seu dever moral é renunciar AGORA!”

Suponhamos que boa parte da população concorde com esta narrativa, de tal modo que, sob grande pressão, o ministro renuncie ao cargo para resguardar o pouco que restou de sua “moral”.

Suponhamos, ainda, que estamos num mundo perfeito (ao menos aos olhos dos indignados com o ex-ministro e com o governo) em que todos os profissionais capacitados para assumir o cargo sejam plenamente “morais” e que acreditem — rigorosamente alinhados com a visão dos indignados — que, necessaria e inevitavelmente, se aceitarem tal posição serão cúmplices das atrocidades do governo e estarão, fatalmente, cometendo um crime moral. Assim sendo, decidem de antemão recusar quaisquer convites que porventura lhe forem endereçados.

O povo, em êxtase, aplaude a posição moralmente invejável da classe.

O Presidente, por sua vez, do “alto” do Palácio da Alvorada, acompanha com sorriso no rosto o festejar da oposição enquanto assina os papéis: assume o cargo mais um indicado político.

O ministério termina menos técnico: mais ideológico. O país enfraquecido; o presidente, fortalecido.

Cabe o questionamento: quem foi, afinal, o cúmplice?

E assim finda a história, donde segue-se a boa e velha moral: o caminho para o inferno sempre foi, continua sendo e sempre será pavimentado de excelentes intenções idealistas.


Conforme bem recordado por Guilherme Marques, esta quase-parábola faz recordar evento narrado por Gustavo Franco no livro “3000 Dias no Bunker”, de Guilherme Fiuza: certo dia, em evento na Fundação Getulio Vargas, Franco perguntou a Simonsen por que ele, gênio da matemática que era, não havia decidido se consagrar nos Estados Unidos na época do governo militar, ao invés de ficar no Brasil “trabalhando para aqueles açougueiros”.

A resposta: “Eu pensei que se eu fosse embora, quando voltasse seria pior. Ia deixar na mão de quem? Desses que vão para lá ser despachantes daquela meia dúzia de sempre? Pelo menos eu dava alguma racionalidade ao negócio.”

Sobre o custo pessoal desta decisão, Simonsen relata: “Não tinha jeito, você não tem poder sem ficar identificado com os que te deram o poder. Mesmo que você os despreze. Eu sabia que não ia consertar o governo, mas pelo menos no meu balcão ia funcionar tudo certo.”